quarta-feira, 27 de março de 2013

Tintóleo


Sou preguiçoso e rezingão.
Frequentemente queixo-me das falhas de um sistema de organização do trabalho,
Antes de fazer o essencial para que esse mesmo sistema funcione.
Mesmo que seja como um velho carro em que para não gastarmos dinheiro no mecânico,
Gastamos o dobro em óleo para que ele não avarie de vez.
Assim me encontro em Portugal, com 33 anos, a gastar rios de óleo.
Tintóleo.

O Toureiro a Cavalo


Fujam! Fujam!
Vem o toureiro a cavalo!
O seu cavalo troteia efeminadamente desajustado ao par de tomates rapados.
Fujam! Fujam!
Em cima do cavalo vem à proa da tauromaquia, o toureiro a cavalo.
Que depois de uma tarde entre bostas a encher de redundâncias o seu pobre animal,
Vem animar as enjoadas damas dos nobres.
Elas estão lascivas e fartas da gordura sebosa de seus senhores.
Elas não pagaram e querem ver a indumentária ridícula.
Tão ridícula quanto os aplausos dos tolos, vazios e entediados pela existência vã.

Fujam! Fujam!
Vem o toureiro a cavalo!
Os seus sapatos não cheiram a bosta, mas as unhas dos pés fedem a queijo da serra.
O cavalo não pode mais com isso e vacila.
Fujam! Fujam!
Vem o toureiro a cavalo!
Com suas bandarilhas coloridas e festivas,
Cheias de sangue da pobre gente que se arrasta em miséria pelas ruas do reino.
Esse sangue porco que não dá para enchidos.
Fujam! Fujam!
Vem o toureiro a cavalo!
Com sua elegância podre de sarro lavado com perfume de puta e roupa interior suada pelas carnes machas que se juntam.

Fujam! Fujam!
Vem o toureiro a cavalo!
Larga pele de cobra venenosa daquelas que matam sem se cansar.
Seguindo a vitima até o leito da morte.
Assim é a arena para o touro quando entra o toureiro a cavalo,
Um leito de tortura e morte.
Para que assistam os representantes do diabo na Terra a execução sumária de tudo o que há de bom.
Fujam! Fujam!
Vem aí o toureiro a cavalo!
E num ápice o espetáculo morreu e a farda de toureiro a cavalo serviu de inspiração pela Dolce&Gabana na feira Milan Gay Fashion de 2036.

O forcado


Esse ser da planície, forjado na vacada da pré-adolescência e acabado ao detalhe na puberdade.
Semi despojado de nobreza por alguma roupa Rococó, mas mui nobre com seu gorro vermelho.
Na sua postura guerreira e sua pequinês quase dócil para a fera na altivez do pé bailarino.
No enorme pódio em que se coloca quando com a sua coragem cospe na farda apaneleirada do toureiro a cavalo.

Humor Misógeno




A mulher não procura coerência na sua vida.
O homem procura, mas não encontra.
Os homens e as mulheres devem desmaterializar-se saindo do espectro da existência humana.
Para se focarem sobre tudo na existência como uma divindade abstrata que as religiões profetizam com usura.
Mas enfim, se queres aturar bem a tua mulher, não polvilhes o seu dramatismo quotidiano com a tua tristeza e ânsia, nem a sua alegria com desprezo paternalista.
Faz como um Buda ou qualquer guru.
Aguenta a dor como um pequeno parto.

que saco


Saco escrotal,
Dá gosto coça-lo por vezes!
E não tenho muito mais a dizer sobre isso.

Crente sou eu


Mas eu sou crente.
Sou tão somente crente dos átomos, das moléculas e dos pentelhos que me crescem a volta do saco escrotal.
Tudo está integrado nessa capacidade infinita dos seres vivos, de observarem e codificarem em matéria a percepção  enevoada da realidade.

A cabeça infinita do não crente


Dizem os crentes,
Que dizer que Deus não é tudo nem é nada, ofende.
Ofende sim, ofende.
Ofende o não crente dizer que Deus é tudo.
Tudo não cabe na cabeça do não crente.
A cabeça do não crente é muito oca, faz eco e dá uma ideia de espaço infinito.
Que eles por sua vez enchem com menemónicas.

Na escandinávia


As igrejas, sés e catedrais são muito bonitas.
São a prova viva de que o espirito humano é sobretudo materialista.
O que impede inerentemente de abarcar causas espirituais.
Por isso é que queimar igrejas, já foi um desporto saudável.

Aborto


Sou a favor do aborto até aos 999 meses.
Isto porque há por ai gente imatura e mal formada, que podia ser abortada.
Alguns inclusive agarram-se de tal forma à placenta,
Que para aborta-los só com chorume de ortigas.
Muito embora lá na aldeia usem muito o tiro de caçadeira.

Pena de morte


Sou contra a pena de morte.
Excepto a pena de morte pela irritação extrema,
Com discursos de Aníbal Cavaco Silva,
Em níveis de som altíssimos, mas que não ensurdeçam as vítimas.

Casamento Gay


Sou a favor do casamento gay.
Sou também a favor de colocarem grandes máquinas a energia solar que despoluam o Tejo a montante, talvez em Santarem.
E o façam chegar a Lisboa cristalino.
De forma que se veja o fundo junto ao pilar sul,
E os golfinhos possam entrar pelo estuário,
A acompanhar a marcha nupcial gay.

O pai natal...é deus



Fossem as pedras, o mar, o sol.
Fosse Alá, Jesus ou Krishina.
Fossem as flores, todos os fungos e peixes, uma só parte de Deus, já seria grande esse Deus.
Ai meu Deus! Que és tão somente ciência e infinito, e nunca cheiraste as flores.

Zug



Ding Dang Dong
Plim Plam Plum
Zig Zag Zug
Este é o tempo do:
- rouba antes que te roubem
- magoa antes que te magoem
- mata entes que te matem.
O melhor mesmo é não fazer nada.
Antes que alguém se relaxe a este ponto, antes de nós.
E nos tire esse apetecido lugar da vítima que não sofreu.

Esbornia


Raspa, raspa, raspa.
Fado, copos e vida.
Enche a vida de barulho comida e bebida.
Fumo passivo e ativo.
É um tédiocida.          
Dizem que inventaram a vacina para a sida.
Acabou, vai-se a humanidade em esbornia fraticida??!

Paródia


Fui a Santa Engrácia tomar uma taça, mijei num poste.
Fui a Santo Estevão malhei uma cerveja de pênalti e caguei numa fonte.
Fui a Sé tomei uma ginja e escarrei pro chão.
Fui a Santa Luzia comi uma maçã e atirei ao rio os caroços que caíram na cabeça de um vadio.
Fui ao São Vicente de Fora peidei no confessionário e fugi sem demora.
Acordei com pés frios e vomitei esta paródia.

Procrastínio


Muito nublados estão os céus de Lisboa.
Bastante inebriados estão seus habitantes.
As águas do Tejo assentam tranquilas no seu leito.
Algo se avizinha como sempre, desta estabilidade em constante mudança.
Nos gabinetes os terramotos e tsunamis são cautelosamente evitados e cirurgicamente absorvidos.
Esta é a ilusão dos indignados.
A ilusão da realidade não pode ser acautelada, ela é uma predisposição das massas.
Não queremos mudar, queremos tudo igual.
Só queríamos uma ilusão mais bela.
Queríamos heróis de banda desenhada convertidos em políticos justiceiros.
Algo que nos desse aquela motivação extra.
Procrastinar a revolta que nem sequer é um fim, mas sim um meio, parece razoável.
Herdamos das 35 gerações de Portugal esta água salgada densa e pesada, que nos abranda os movimentos e nos impede os atos bruscos.
Esta eterna e insanável ponderação de magistrado que reina em cada cidadão.
Mas se o cidadão é só um simples cidadão, não deverá ele ser uma hélice cortante?
Um leme que sulque no Atlântico um novo caminho para o país?

03/03/2013